Assim Que Saí da UTI

 

Assim Que Saí da UTI: A Luta Começava Ali


Assim que saí da UTI, uma coisa me surpreendeu: eu estava otimista.
Não era alegria, não era negação… era simplesmente a sensação de estar vivo.
E aquilo, por algum motivo, parecia suficiente naquele momento.

Eu estava no Rio de Janeiro de férias quando tudo aconteceu. Por isso, para que a notícia do AVC não chegasse aos meus pais – e para poupá-los de uma angústia que eu mesmo ainda não compreendia – tomei uma decisão difícil: escondi de todos.

Foi um mês terrível nesse sentido. Por fora eu tentava manter alguma normalidade, mas por dentro havia um silêncio pesado. Eu só queria voltar para Salvador, ver lugares e pessoas familiares, encontrar algum ponto fixo enquanto tudo dentro de mim parecia estranho e novo. Era como se a minha mente estivesse “modificada”, anestesiada de emoções profundas. Talvez tenha sido isso que me impediu de sentir tristeza naquele início. Talvez tenha sido um mecanismo de proteção.

A real gravidade da situação só caiu sobre mim meses depois. E quando caiu… caiu de uma vez.
Fiquei triste, profundamente triste. Senti medo, perda, confusão. Mas também senti outra coisa: um chamado.

Eu me voltei para Deus.
Ali, no meio da fragilidade, fiz uma promessa sincera: essa tinha sido a última vez que eu me afastaria d’Ele.
Não era hora de fugir, era hora de lutar.

E eu lutei.
Tentei de tudo — meditação, hipnose, respiração consciente, alimentação mais limpa, técnicas para fortalecer o cérebro, qualquer coisa que pudesse me fazer recuperar o que eu havia perdido. Uma coisa, porém, sempre esteve clara dentro de mim: eu não iria desistir.

Eu precisava lembrar do que tinha aprendido nos anos anteriores enquanto cuidava da minha esposa, e precisava aprender coisas novas. E mais importante: precisava colocar tudo em prática, mesmo sem garantias.

Hoje, estou preparando um áudio com sugestões positivas, criado especialmente para quem passa por recuperação cognitiva ou motora — algo que eu mesmo teria desejado ouvir naquele primeiro mês.
Quando fiz isso pela primeira vez, eu não sabia se funcionaria. Mas, naquele momento, isso nem importava.
O que importava era agir como se já estivesse funcionando, era acreditar no processo mesmo sem ver resultados imediatos.

Essa é a verdade da recuperação:
não começa no corpo, começa na decisão.
A decisão de continuar, de tentar, de lutar — e de acreditar que, passo a passo, a vida retorna.

E ela retorna.

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